terça-feira, 10 de novembro de 2015

Colonização X exploração – os nossos pioneiros

Este é um capítulo do meu futuro livro que se chamará "As Origens do Nosso Atraso - A História da Inovação e do Empreendedorismo no Brasil e comparações com outros países".




Colonização X exploração – os nossos pioneiros

Como já discutimos antes, o império romano conquistava os novos territórios para não impunha sua cultura (somente algumas leis e regras tributárias); assimilavam a cultura dos povos conquistados e deixavam bem-feitorias por onde passavam (estradas, aquedutos, monumentos, banhos públicos, técnicas de construção, etc.).

Conforme Souza (2012), a razão do predomínio comercial da Alemanha na Europa medieval consistia “no fato de não procurar dominar politicamente os países bálticos, mas favorecê- los, através do alargamento do comércio e incremento da economia dessa imensa região. Para tal, além de compradores em larga escala dos produtos nacionais, promoviam a venda dos mesmos nos mercados internacionais.”

Por outro lado, em muitos outros casos, os colonizadores destruíam os territórios, como invasores bárbaros e vândalos na Europa Medieval, levando tudo o que podiam e sem deixar nem mesmo algum traço cultural que pudesse ser aproveitado.

Como já discutimos antes, alguns colonizadores antigos, como a Inglaterra, apesar de deixar obras de infraestrutura, também regulavam a economia conquistada, limitando o crescimento dos colonizados. Isto foi uma das causas que impediu os países do hemisfério sul de se desenvolverem.
Segundo Frieden, em geral, os colonos cultivavam produtos que os nativos não queriam produzir. Mas se opunham à inclusão dos habitantes locais no sistema colonial, impedindo uma integração econômica internacional ampla e o desenvolvimento econômico em geral da colônia. Como já discutido antes, mesmo o governo colonizador restringia as atividades econômicas das colônias; dirigiam o mercado local forçando as colônias a produzirem produtos escolhidos e determinando as relações de comércio exterior das colônias. A estratégia era permitir os pioneiros a empreenderem mas sempre sob controle centralizado, reforçando a dependência da colônia. Em parte, isto pode ter sido causa para fracassos de colonização na América Central e do Sul, África, Ásia e Oceania.

Mas há também casos de sucesso, como nos EUA e na Austrália. Nestes dois países, os colonizadores foram pioneiros e fundaram um novo país. No Brasil, pelo contrário, fomos colonizados por exploradores, que extraíram o que podiam e só formaram uma extensão de Portugal. Até mesmo povos invasores, como os holandeses, deixaram mais bem-feitorias e desenvolvimento que os portugueses. Nossos pioneiros queriam enriquecer depressa, para voltar à Europa, sem cultivar as lavouras para perpetuar a exploração do solo, sem deixar infraestrutura para os que ficavam (Faoro).

Segundo Frieden, as colonizações dos europeus foram caracterizadas por migrações em massa para áreas pouco habitadas, como os pampas argentinos e as pradarias canadenses, onde normalmente os
imigrantes e seus descendentes eram praticamente toda a população local. Os colonizadores atuavam onde não havia ninguém. Então não escravizavam nem roubavam; ali criavam suas cidades e seus próprios recursos.

Segundo Landes, muitos colonizadores, como o caso dos americanos, inventaram o que precisavam, pois não podiam depender do governo colonizador. Esta pode ser a origem do espírito empreendedor na América do Norte, ao contrário da falta em outras colônias.

Esta busca por empreendedorismo e liberdade pode ter sido decisivo na independência de algumas colônias. Landes afirma que a força das sociedades civis pode ter acelerado o processo de independência no Norte (onde a separação da colônia aconteceu primeiro), enquanto que no Sul esta força faltava devido à acomodação civil, mesmo onde não havia ditadores. E Landes complementa dizendo que, a principal instituição civil, a Igreja Católica, estava interessada em manter seu staus quo, proprietária de terras e riquezas. No caso da América Latina, Landes acredita que a independência veio menos por questões ideológicos ou políticas e mais pela fraqueza e insucesso econômico de Espanha e Portugal.

- O Caso do Brasil


Vamos começar apresentando a comparação feita por Moog (2011) entre os colonizadores norte-americanos e os portugueses no Brasil. Os primeiros eram realmente colonizadores, pois chegaram à América para ficar e criar um novo país. Vieram em busca de terras, já que na Europa não havia lugar para eles plantarem. Não pensavam em regressar e o objetivo era criar vilas e cidades. Já os primeiros portugueses que aqui chegaram, eram conquistadores e vieram por cobiça (verdadeiros saqueadores). O objetivo era extrair o que pudessem e levar para Portugal e Europa (“conquista para despovoar”, como define Moog). Os poucos que ficavam, era porque não havia outra opção. Eduardo Bueno (2006) retrata bem os nossos pioneiros como náufragos, traficantes e degredados. Ficavam porque conseguiam algum tipo de privilégio junto aos indígenas. Darcy Ribeiro (1995) chama de “cunhadismo”, o fenômeno de estes pioneiros casarem com índias, passarem a fazer parte da tribo, inclusive ajudando a comandar, e levando para dentro da tribo os seus familiares.

Outra diferença entre a colonização na América do Norte e na do Sul é que por aqui havia muito mais miscigenação. Lá, os ingleses não casavam com índios. Segundo Karnal et al. (2007), o “universo inglês, mesmo quando eventualmente favorável à figura do índio, jamais promoveu um projeto de integração. O índio permaneceu um estranho – aliado ou inimigo –, mas sempre estranho”. A estratégia de colonização norte-americana era que viessem famílias (mulheres e filhos), para que os homens quisessem estabelecer raízes e não mais voltar, como conta Michael Rank (2015) no episódio do povo Roanoke.

Já os portugueses que aqui chegaram estavam acostumados com cruzamentos, até porque foram invadidos e ocupados por mouros durante 800 anos (Moog, 2011). Landes acredita que um certo racismo inglês (por causa do protestantismo) evitou a miscigenação racional, enquanto que as colônias espanholas e portuguesas (católicas) tinham uma mente mais aberta ao cruzamento inter-racial. Segundo Le Roux (2009), a miscigenação pode ser a origem da união na América Latina. Entretanto, nos EUA, a homogeneidade do povo manteve a união com a qual já chegaram.

Outra questão é que os colonizadores ingleses na América, assim como na Austrália, encaravam o trabalho como algo natural, inclusive assumindo a mulher como companheira de trabalho. Por isto, criam diversas inovações com o pouco que tinham na nova terra. Já os nossos pioneiros viam o trabalho como punição e consideravam que trabalhar era para escravos. Vinham sem as esposas para extravasar sua liberdade e hedonismo (Moog, 2011). Segundo Faoro: “o inglês trouxe a sua mulher para a colônia, ao contrário do português, que a esqueceu, preocupado com a missão de guerra e de conquista, adequada ao homem solteiro. Mulher sem o cuidado do ócio, para a qual o escravo supria os trabalhos domésticos, devotada ao cultivo, à colheita, às tarefas industriais domésticas, ao trato com empregados”.

Mais tarde, os imigrantes não descendentes de portugueses que chegaram no Brasil depois vieram com o mesmo espírito que os colonizadores norte-americanos, como discutiremos no próximo capítulo.

Tabela 10: Resumo comparativo entre Colonizador Norte-Americano X Brasileiro (baseado em Moog, 2011)
Colonizador americano
Colonizador do Brasil
Colonizador
Homem da Reforma
Vida é dever
Mulher é companheira de trabalho
Não se miscigena com índios (Ingleses) Alguns Franceses no Canadá aceitam casar com índios
Pouca miscigenação de brancos com escuros na Inglaterra
Vieram em busca de terras para viver
Não pensavam em regressar
Conquista terra para criar vilas e cidades
Trabalho é uma dádiva de Deus
Vêm autodeterminados a formar grupo civil e político (antevisão da independência)
Povo mais alfabetizado
Americano se diz deste o início “americano” (por escolha e com orgulho)
Trabalha, inventa, se adapta
Mantém o passado que deu certo e destrói o que não deu para fazer melhor
Conquistador
Homem da Renascença, anterior à Reforma
Vida é direito
Mulher é um objeto de presa
Casa e tem filhos com índios e negros
Portugueses  acostumados com miscigenação pois foram invadidos e ocupados pelo mouros durante 800 anos

Vieram por cobiça (terra e riquezas)
Pensavam em voltar
Conquista terra para despovoar
Trabalho é punição
Vêm sem pretensões públicas ou políticas
(dependência da colônia)

Primeiros que nasceram aqui não queriam parecer brasileiros (os mazombos).
Viajavam a Portugal para apagar origem
Brasil era para extravasar sua liberdade e hedonismo



O colonizador inglês na América se diz deste o início “americano” (por escolha e com orgulho). Já os primeiros que nasceram aqui no Brasil (chamados de “mazombos”) não queriam parecer brasileiros (até porque este termo estava associado ao trabalho com pau-brasil). Viajavam a Portugal para apagar a origem, careciam de iniciativa ou inventividade, tinham descaso por tudo que não fosse fortuna rápida, tinham falta de ideal coletivo e falta de crença na possibilidade de aperfeiçoamento moral do homem, apesar de idolatrarem os franceses (talvez somente a parte materialista). Segundo Moog, os mazombos eram tristes, imorais, indiferentes, derrotados e com má vontade. Baseavam-se no privilégio, contra a igualdade social ou política, para conseguirem os benefícios. Queria ganhar no jogo, na aventura, sem trabalhar (comércio era para portugueses e trabalho para escravos). Daí talvez seja a origem do nosso famoso “jeitinho brasileiro”. Os próprios portugueses consideravam os mazombos inferiores.

Talvez nossos heróis folclóricos Caramuru e Macunaíma sejam os melhores representantes do Brasil desta época: heróis malandros e preguiçosos, ganhavam sem trabalhar, só enganando os outros.

Conforme Faoro, “o inglês fundou na América uma pátria; o Português, um prolongamento do Estado”. Os colonos ingleses formaram sua própria organização política e administrativa, longe do paradigma feudal de onde vieram. “Não os contaminou a presença vigilante, desconfiada e escrutadora, do funcionário reinol: por sua conta, guardadas as tradições de selfgovernment e de respeito às liberdades públicas, construíram as próprias instituições” (Faoro). Os colonos ingleses estavam acostumados ao duro trabalho agrícola (tanto homens quanto mulheres), sem o desdém aristocrático; agarraram-se à liberdade e ao empreendedorismo sem o ”paternal guarda-chuva real” (expressão de Faoro).

Segundo Karnal et al. (2007), os primeiros colonos norte-americanos também tentaram algo como nossas capitanias hereditárias. Assim como o Brasil, os ataques indígenas aos colonizadores, a fome e as doenças minaram a motivação inicial. A segunda tentativa inglesa de colonização da América do Norte foi licenciando companhias particulares para a colonização. Talvez esta tenha sido a primeira privatização na América. Nossas capitanias hereditárias, ao contrário, estavam sob responsabilidade de nobres, pouco acostumados ao trabalho, à administração e ao empreendedorismo. Nos EUA, eram empresas capitalistas. Como define Karnal et al., uma colonização de empresa e não de Estado.  É claro que no primeiro momento havia o monopólio de certas atividades em favor destas companhias. Entretanto, a iniciativa não deu certo, tendo sido revogadas as licenças destas companhias principalmente pelas altas dívidas.

A terceira tentativa era exportar colonos da Inglaterra para o novo mundo, uma maneira de a colônia se desfazer de quem não gostava e povoar a nova terra para manter a conquista. Segundo Karnal et al. (2007), é incorreto afirmar que para a América do Norte vieram somente colonos seletos, altamente instruídos e com capital abundante. A viagem não era fácil, sendo mesmo comparada ao tráfico de escravos. Muitos não tinham como pagar a passagem e aceitavam a servidão temporária, até zerar o débito com quem lhes tivesse emprestado dinheiro para a viagem. Lá no Norte também houve muitas rebeliões, de colonos reivindicando melhores condições de vida.

Parte dos imigrantes ingleses na América veio pela liberdade religiosa aqui disponível. Segundo Karnal et al. (2007), houve muita perseguição religiosa na Inglaterra nos séculos XVI e XVII. Alguns mesmo acreditavam que a América seria uma nova Canaã, para um grupo escolhido por Deus para criar uma sociedade dos eleitos. Outros vieram procurando um lugar onde as leis fossem mais justas e iguais. Segundo Karnal et al., a “ideia de povo eleito e especial diante do mundo é uma das marcas mais fortes na constituição da cultura dos Estados Unidos.”

Talvez uma das causas para nossa colonização não ter dado certo é porque só havia extrativismo. Os Bandeirantes entravam e extraiam, mas não ficavam. Os pioneiros norte-americanos colonizaram a terra, criando infraestrutura e assumindo o país como sua nova nação. Esta é a diferença da ocupação do oeste do Brasil em relação ao oeste americano e Austrália. O oeste brasileiro só foi realmente povoado com a criação de Brasília.

O resumo de Moog nesta comparação é este: a colonização nos EUA tem sentido espiritual, orgânico e construtivo; no Brasil, o sentido é predatório, extrativista e secundariamente religioso. É por isto que as casas dos americanos possuem porões com oficinas e laboratórios, enquanto a casa grande no Brasil estava sempre lotada de escravos.

Laurentino Gomes (2014) coloca mais lenha na fogueira: “A riqueza de Portugal era resultado do dinheiro fácil, como os ganhos de herança, cassinos e loterias, que não exigem sacrifício, esforço de criatividade e inovação, nem investimento de longo prazo em educação e criação de leis e instituições duradouras. Numa época em que a Revolução Industrial britânica começava a redefinir as relações econômicas e o futuro das nações, os portugueses ainda estavam presos ao sistema extrativista e mercantilista, sobre o qual tinham construído sua efêmera prosperidade três séculos antes. Baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infraestrutura, educação ou melhoria de qualquer espécie. ‘Era uma riqueza que não gerava riqueza’, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz.

A colonização foi obra do Estado, sem participação de empreendedores. Os poucos comerciantes do início da colonização, como Fernando de Noronha (conforme Eduardo Bueno), tinham privilégios acima dos demais. E evitavam à coroa ter que dispender esforços (bastava pagar as comissões). Conforme Faoro, mesmo a produção de açúcar não era tão importante quanto o pau-brasil, pois aquela exigia mais esforço que esta. Também não houve feudalismo (nem mesmo com as capitanias), porque não havia sobreposição de camadas sociais e tudo pertencia ao governo, sem liberdades aos pioneiros que queriam livremente empreender.

Faoro ainda complementa dizendo que, mesmo com a passagem da economia de escambo para a de produção, há escassez de gêneros de consumo porque os nossos pioneiros queriam enriquecer depressa, para voltar ao reino, sem cultivar as lavouras para perpetuar a exploração do solo. Fábricas, oficinas, exploração agrícola ou mineira, as principais atividades econômicas aqui estão nas mãos de empresas estrangeiras. Estes sim enriquecem com o empreendedorismo. Nossos pioneiros preferem formar um reino de aristocratas ociosos do que ser uma democracia próspera de trabalhadores.



Uma dúvida que se coloca aqui é como esta raiz tão distante na nossa ascendência ainda hoje se faz presente no nosso Brasil. A princípio, não deveria haver determinismo, pois esta cultura, como já diz a palavra, foi aprendida e não está no nosso DNA (como discute David Shenk). Por ser cultura, aprendizado, podemos modificar tal comportamento e atitudes. Ainda mais que tivemos inúmeros imigrantes, muito miscigenação de raças e culturas, e também muito tempo para aprender com outras culturas novas formas de agir e assim modificar nosso destino.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O segredo do sucesso do Vale do Silício



Resumo do Livro:
SCARUFFI, Piero. A History of Silicon Valley - Almost a 3rd Edition (ebook).

Este livro conta a história das tecnologias da informação desde 1900, com muitos detalhes, incluindo nomes de pessoas que fizeram acontecer, lugares, datas, etc.

Fala de todas as tecnologias, incluindo a história do computador, computador pessoal, PC, mouse, vídeo games, software, automação de escritórios, redes de computadores, Internet, etc. Conta a história das empresas, como nasceram, cresceram e até mesmo daquelas que já morreram. O foco é nas empresas do Vale do Silício e como esta região se desenvolveu de 1900 até os dias atuais.
Mas como mesmo o autor enfatiza, é preciso conhecer a história como um todo. Por isto, ele descreve a história das tecnologias no mundo todo e como o Vale se inseriu neste contexto.

Mas o principal no livro é destacar os motivos que fizeram o sucesso do Vale do Silício.

Aí vai um resumo dos fatores impulsionadores.

- Os Hobbistas
Esta é a ideia de prosumidor, que consome e produz algo, já foi descrita em outros livros (“A 3ª Onda”, de Alvin Toffler e “The Zero Marginal Cost Society” de Jeremy Rifkin).
No Vale, eram pessoas que tinham por hobby trabalhar com eletrônica e tecnologias (depois passou a software). Usando kits amadores, construíam novos produtos. O mais conhecido deles talvez tenha sido Steve Wozniak que criou junto com Steve Jobs o primeiro computador pessoal.
Eles trocavam conhecimentos em Comunidades e davam suporte. Produziam e consumiam computadores, modems, software, etc. E davam suporte aos novatos, como uma empresa hoje em dia dá suporte pago. Aqui no Brasil talvez o caso mais conhecido seja das BBS que deram origem a provedores de Internet.
No início, lá no Vale, era só uma paixão individual, até que marketeiros ou empresas ou universidades viam potencial para desenvolvimento de produtos para o mercado.
Por isto, muitas empresas começaram em garagens (como Apple e Microsoft).
Scaruffi conta que os jovens nerds do Vale eram muito individualistas e não chegavam a ter grandes acontecimentos sociais. Ficavam muito em casa e não gostavam de trabalhar em empresas com hierarquias e regras. A maioria nem frequentava universidades. Adeptos do “faça você mesmo”, estavam focados em usar e criar tecnologias.
Ali nasceram lojas especializadas para hobbistas e muitas deles cresceram sendo pioneiras na comercialização das inovações, que inicialmente eram para outros hobbistas mas que logo chegaram à vista de consumidores comuns. Este foi o caso do computador Apple II.
Os hobbistas, seus clubes e comunidades e as lojas especializadas afrontaram as grandes empresas.


- Pequenas empresas e spin-offs
Scaruffi fala sobre várias empresas pequenas com menos de 10 funcionários criando inovações. Algumas, como dito antes, saíram de garagens. Outras foram criadas a partir de projetos em Universidades, as chamadas spin-offs (falarei das Universidades mais adiante).
Muitas delas não sobreviveram mas deram origem a novas empresas, ou então, seus engenheiros e empreendedores acabaram em outras empresas do Vale.
Scaruffi defende que, como células de um organismo vivo, o importante não era manter as células vivas mas sim o organismo. E para tanto, células velhas deviam ser eliminadas naturalmente.

- Rotatividade de pessoal
Este processo dinâmico de geração e morte de empresas, também gerava muito turnover nas empresas. Até porque elas estavam próximas umas das outras e certamente era relativamente fácil sair de uma empresa e ir para outra com um projeto ou salário melhor. As pessoas preferiam a mobilidade horizontal (entre empresas) mais que a vertical (subir na hierarquia dentro da mesma empresa).
A rotatividade de pessoal técnico foi essencial para o Vale porque gerou troca e aperfeiçoamento de conhecimentos.
No Vale também, teve início a cultura de tratar os empregados como família e fazê-los sócios, dando ações da empresa (stock options), além de permitir que os donos da empresa fossem tratados pelo primeiro nome. Também não havia regras para horas de trabalho nem vestimentas (dress code). As empresas se esforçavam em transformar seu ambiente num campus colegial.
As empresas do Vale ficaram conhecidas (e são até hoje) por contratarem os melhores dos melhores.


- Competição e cooperação entre empresas
As empresas “conversavam” entre si, trocando conhecimento mas também utilizando produtos umas das outras. Havia uma simbiose, que ora se manifestava como uma cooperação ora como uma competição, onde uma tentava copiar e fazer melhor algo que outra havia inventado.
As empresas guardavam seus segredos industriais, mas olhavam para o que outras estavam fazendo, e não tinham medo de abrir seus projetos para trabalhar em conjunto com outras empresas. Foi assim que nasceu o DOS da Microsoft, a interface gráfica do Macintosh. Por outro lado, a Netscape morreu pela competição desleal da MS.
A concentração física das empresas também funcionava como vitrine para olhares de investidores e facilitava atrair mão de obra altamente qualificada.

- Imigrantes
Scaruffi cita o nome de vários imigrantes de várias nacionalidades (russos, poloneses, judeus, chineses, europeus, etc) que tiveram participações importantes nas inovações geradas no Vale. Sem eles, até mesmo para a mão de obra mais básica, o Vale não teria sobrevivido. Mas muitos deles foram os que tiveram as ideias principais.

- Contracultura e informalidade geram criatividade
A Califórnia era conhecida como o centro da contracultura. Se no lado leste, todos eram formais e bem comportados, no lado oeste até mesmo empreendedores e bilionários usam jeans. Havia o espírito de rebeldia, que se manifestava na música, nas artes e no início do ativismo gay.
Scaruffi acredita que este tipo de ambiente, longe das regras, deve ter favorecido a criatividade também na área técnica.
Esta contracultura era caracterizada pelo sentimento de ir contra tudo e todos e calcada fortemente na ideia de que era possível mudar o mundo.
Só para lembrar, Steve Jobs foi um hippie antes de fundar a Apple e disse que queria deixar “um dente no Universo”.


- Universidades
Elas têm um papel fundamental no Vale. Dali partiram as ideias iniciais das grandes inovações. Muito investimento recebido foi utilizado para criar laboratórios de inovações nas Universidades. Professores eram contratados e projetos financiados. Alunos se engajavam curiosos no início, mas depois tornaram-se engenheiros de computação, eletrônica ou de software. E este era um status maior que executivos de marketing e só ficava atrás dos empreendedores.
Nas Universidades do Vale, o espírito é bem diferente do quase feudalismo nas universidades da Europa, onde o Professor só fala com os alunos com reuniões marcadas.
Durante a Grande Depressão que iniciou em 1929, muitos professores estimularam seus alunos a criarem seus próprios negócios. E este sentimento continua até hoje.


- Capital de risco: anjos retribuindo
Sem dúvida, muito do dinheiro que chegou no Vale foi pelas mãos de investidores anjos. Ou de empresas de Venture Capital criadas por milionários. Muitos destes se fizeram no Vale mesmo. E daí assumiram a condição de serem responsáveis por retribuir investindo em novos empreendedores, como os mecenas nas artes. Uma espécie de gratidão pelo Vale ter lhes feito milionários.
A concentração de empresas e criatividade facilitava a atração de investidores anjos. E muitos bilionários chegaram mesmo a fazer filantropia para projetos em universidades e empresas. “Seja criativa enquanto você não é rico, e suporte a criatividade quando você for rico”.

- Capital de risco: assumir o risco do negócio
Um dos destaques do referido livro é que os empreendedores do Vale assumiam a condição de risco dos negócios. Era sabido e parte do investimento. Scaruffi chega a dizer que o pessoal do Vale transformou a capacidade de assumir riscos numa ciência.


- Estratégia
O Vale usava como estratégia identificar áreas promissores ou tecnologias disruptivas.
Aí empresas, universidades, governo e investidores focavam na tentativa de gerar inovações nestas novas áreas.
As inovações eram pensadas para nichos de mercado ou para criar novos mercados (tecnologias disruptivas). E o Vale conseguia prever a mudança de tecnologias.
Foi assim que muitas empresas de hardware se direcionaram para software.


- Papel do Governo Americano
Ao contrário do que defendia Adam Smith e corroborando a teoria de Keynes, o Governo foi muito importante para o desenvolvimento do Vale do Silício.
Primeiro porque o Governo era o principal cliente durante as duas guerras mundiais e foi também cliente durante a guerra fria. Os departamentos de defesa, espacial, de inteligência, etc, sabiam que só poderiam estar à frente dos inimigos ou competidores se tivessem novas e melhores tecnologias. A guerra tornou grandes as pequenas empresas.
Segundo o Governo interviu através de políticas, tais como dando ou evitando monopólios. A AT&T ganhou monopólio e com isto conseguiu desenvolver tecnologias de comunicação que foram importantes para a guerra e acabaram chegando ao mercado. Por outro lado, o PC só se popularizou porque a IBM foi obrigada pelo Governo a abrir a arquitetura do PC, o que permitiu que várias empresas (inclusive pequenas) criassem peças e software para microcomputadores.
O Governo também estimulou a cooperação entre universidades e empresas, desempenhando um papel importante ao juntar ambos lados em projetos estratégicos.
As inovações geradas para a área militar acabavam voltando para as empresas, gerando novos produtos para o mercado consumidor (por exemplo, o GPS).
O Governo também incentivou investimentos baixando o imposto sobre o capital de risco, o que fez com que muitas pessoas e empresas investissem nas startups do Vale.
E até mesmo chegou a arcar com uma parte dos investimentos. Durante a Guerra Fria, criou uma lei em 1958 pela qual o governo colocava 3 dólares para cada dólar investido numa startup por uma instituição financeira.


Scaruffi resume o espírito do Vale numa anedota: ele conta que quando trabalhava na Europa, quando alguém tinha uma ideia, o gerente perguntava: “Alguém já fez isto?”.
Se a resposta fosse sim, o gerente dizia “então estamos muito atrasados” e não valia a pena investir na ideia. Se a resposta fosse não, o gerente dizia “então não há necessidade para isto”.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Nova ordem econômica - parcerias e colaboração (grandes cooperativas)

Peter Drucker certa vez disse que "no futuro, haverá 2 ou 3 grandes dominando cada mercado".
Minha opinião é que há espaço para os pequenos. Eles serão parceiros dos grandes.

Jeremy Rifkin no seu livro "The Zero Marginal Cost Society: The Internet of Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism" fala de uma nova ordem econômica. Ela será caracterizada pelo Prosumidor (aquele que consome mas também produz), criando um novo mercado, que integra empresas fornecedoras e clientes. Clientes irão consumir destes fornecedores mas ao mesmo tempo ajudá-los na produção ou distribuição.

Cidadão, faça você mesmo e venda. Mas seja parceiro de uma empresa.
Empresa, conquiste um cliente e peça sua ajuda.

Rifkin chama de "social/collaborative commons", este exército de pessoas comuns que irão colaborar entre si, com empresas e com a sociedade para gerar novos mercados. Esta seria a terceira força (além de governo e mercado).

Não são necessariamente filantropos, mas podem ser. É um mercado entre capitalismo e socialismo. Meio difícil de classificar ou entender. Mas ele existe e dá retorno financeiro.

Exemplos já existentes para representar este novo tipo de mercado:
a) produção de energia em residências (na Alemanha já é realidade cidadãos vendendo o excedente de sua produção caseira);
b) application stores (cada cliente pode fazer seu aplicativo e vender pela Apple ou Google Play);
c) impressão 3D em casa;
d) venda e distribuição de produtos, como fazem Avon e Natura;
e) sites para bandas novas divulgarem suas músicas (cliente pode fazer sua música e vender);
f) pessoas publicando seus livros e vendendo (Kindle Direct Publishing da Amazon) ;
g) hospitais que recomendam cuidadores para pacientes em residências;
h) empresas que recomendam entregadores (empresas para pequenas entregas);
i) empresas que recomendam montadores ou assistência técnica (móveis, aparelhos, etc);
j) Youtube, Google, Facebook, Twitter: pessoas produzem conteúdo;
k) AirBnB: aluguel de quartos da sua própria casa.


Vantagens deste novo tipo de mercado:

- diminui custos para empresas e depois para clientes
porque o cliente contribui fazendo parte do serviço e porque usa parte da sua infraestrutura

- diminui custos porque elimina atravessadores
quem quer comodidade vai pagar mais caro

- custo marginal zero (do Rifkin): custos iniciais com aprendizagem ou infraestrutura
depois custo é quase zero

- utilizar infraestrutura e conhecimento que já está disponível

- poder de produção e criatividade de clientes e pessoas comuns

- Internet das coisas físicas: como começou a Internet, ponto a ponto, cada um custeava ligação até outro ponto; imagine isto com redes de distribuição de energia, banda larga, telefone, entregas

- descentralização: cada um faz uma parte pequena e juntando tudo dá um todo enorme.

- novos tipos de empregos, negócios e renda
Segundo Rifkin, mais empregos que nos setores tradicionais e mais aumento que o PIB.


Desafios:

- para alguns mercados, cliente precisa conhecimento ou infraestrutura
empresas podem bancar estes custos iniciais para obter parceiros


Casos possíveis no futuro:

=> entrega, transporte, logística e distribuição
empresas de transporte, táxis, ônibus
+
motoboys, cidadãos comuns com seus carros e casas para armazenamento temporário
(revolução do Uber e outros)

=> ensino informal
universidades, escolas
+
professores free lance, cidadãos que possuam conhecimento ou expertise

=> segurança em bairros e cidades (feita em parte por vizinhos)
não justiça, nem prisões ou condenações



A pensar:

- como organizar de forma descentralizada tantas partes ?
"Quando as partes de um sistema se comportam de forma independente umas das outras, o comportamento coletivo do sistema é simples." E consequentemente o resultado do comportamento coletivo também é mais pobre e menos inteligente. "A complexidade do comportamento coletivo tem que ser menor do que a complexidade do indivíduo que controla o todo." Um indivíduo, para controlar um grupo maior, não pode deixar o grupo ser mais inteligente que ele mesmo. "Organismos que são menos complexos que as demandas do ambiente têm menos probabilidade de sobrevivência." Precisam aumentar sua complexidade para se adaptarem. Aprendi com o artigo abaixo: Y. Bar-Yam, Complexity rising: From human beings to human civilization, a complexity profile, Encyclopedia of Life Support Systems (EOLSS UNESCO Publishers, Oxford, UK, 2002); also NECSI Report 1997-12-01 (1997).


- como utilizar quem trabalha por free lance e por serviço ?
tradutores, programadores, designers, arquitetos, consultores, alguns jornalistas e produtores de mídia, engenheiros e projetistas, pedreiros, pessoal de limpeza

- pessoa vai no supermercado e já faz compras para vizinhos

- alguém vai viajar para visitar parentes em outra cidade e já leva encomendas de um estranho
(negociado pela internet); precisa confiança

- utiliza poder de grandes centros urbanos conforme pensamento do Geoffrey West ???
necessidade de infraestrutura cresce abaixo do crescimento da população

- como conseguir engajamento do paciente no tratamento ?

- como fazer cooperativas de conhecimento ?

quinta-feira, 2 de julho de 2015

SOBRE COOPERAÇÃO, PUNIÇÃO, RECIPROCIDADE E GENEROSIDADE – Por que fazer o bem é importante e punir quem não faz também.



Matt Ridley escreveu um livro sobre as origens da virtude no ser humano. O livro é uma grande discussão filosófica recheada de exemplos práticos.

Por outro lado, Martin Nowak e parceiros estudaram a cooperação através de simulações computacionais. A ideia é fazer simulação social, ou seja, avaliar o comportamento de pessoas (principalmente multidões) através de modelos computacionais.

A cooperação pode ser entendida como a ajuda de pessoas a pessoas. Podemos ver isto no contexto de uma equipe de trabalho ou esporte, dentro de uma família, no contexto de uma empresa toda e certamente na sociedade (cidade, país ou planeta).

Nowak utilizaram jogos como o Dilema do Prisioneiro, a Tragédia dos Comuns, o jogo do Ditador, etc. Estes jogos consistem em simular rodadas de interações entre pares de pessoas. As pessoas são representadas por agentes computacionais que assumem comportamentos programados.

No caso, 2 comportamentos foram estudados: os cooperadores e os desertores.
Os cooperadores podem ser vistos como aquelas pessoas que ajudam outros, que compartilham informações, que fazem o bem, que atuam ou participam como voluntários em eventos ou promoções beneficentes. Já os desertores seriam os que possuem comportamento contrário.

Nowak começou com uma distribuição aleatória de cooperadores e desertores. Assim como a evolução dos seres vivos, novas gerações surgem, geralmente repetindo o comportamento de seus pais. Mutações aleatórias são forçadas para modificar o comportamento, simulando alterações de comportamento de pai para filho.

No primeiro experimento, em poucas gerações, todos estavam desertando, ou seja, os desertores dominaram o mundo (ou a sociedade em questão).

Outro experimento foi feito, onde todos começavam cooperando e a partir daí copiavam o comportamento de seu par (ou oponente no jogo). Ou seja, cada indivíduo escolhe cooperar na sua primeira decisão. Se seu par no jogo cooperar também, o indivíduo segue cooperando na próxima decisão. Se o par não cooperar, então o indivíduo muda seu comportamento para também não cooperar. É o chamado tit-for-tat (olho por olho), que já aparecia nas antigas leis da sociedade (ver Código de Hamurabi e Levítico, o livro de leis dos Judeus). O resultado foi que houve um rápido domínio de cooperadores (isto quando o início é por cooperar e depois ocorre a imitação ou olho por olho).

Esta é a reciprocidade direta (1). Ou seja, o famoso “eu te coço, tu me coça” que existe inclusive entre os macacos. Mas que também pode servir para o mau (“se tu me bater, eu te bato também”, que os humanos parecem já trazer como instinto, pelo comportamento dos bebês em creches).

Segundo Nowak, há  5 formas de os cooperadores prevalecerem no grupo. E a reciprocidade direta é a 1ª.

Naquele experimento de Nowak, depois de 20 gerações, surgiu por mutação (um tipo de evolução natural) uma nova estratégia: cooperar em alguns casos onde o outro desertou (este é o surgimento do perdão como fator evolucionário). Esta estratégia é bem entendida como fator de sobrevivência para a raça humana. Imagina se o olho por olho ficasse para sempre; não haveria mais humanidade. Por isto é que judeus e árabes continuam a brigar, porque em algum momento há perdão e mudança da estratégia.

Outra estratégia de cooperação é a seleção espacial (2). Ela acontece quando um vizinho coopera com outro vizinho, formando grupos que prevalecem sobre desertores. A vizinhança pode ser por espaço, região geográfica ou por perfil de interesses.

Há também a seleção de parentesco (kin selection) (3), que ocorre quando um parente ajuda outra (como o amor fraternal ou de uma mãe por seu filho).

A 4ª estratégia é a reciprocidade indireta (4): “se eu coçar alguém hoje, amanhã um outro vai me coçar”.

Nos seres vivos, um indivíduo ajuda outro pela sua reputação (se ele já ajudou outros antes). Por isto, é importante a formação da reputação (falaremos disto depois).

A 5ª estratégia é a seleção de grupo (5): um grupo de cooperadores tende a prevalecer sobre grupos de desertores.

Axelrod também fez simulações computacionais e concluiu que os custos de não cooperar são maiores que custos da cooperação e que um grupo só de trapaceiros não sobrevive. Segundo ele, o ser humano deve combinar 4 fatores:
1. Bondade: evita problemas desnecessários;
2. Retaliação: desencoraja deserção dos outros;
3. Perdão: retoma estado inicial de cooperação;
4. Clareza: para o outro entender nossa posição.


As 5 formas de cooperação existem em outros animais ? Sim.

O que nos faz diferentes ? Temos mais facilidade para avaliar a reputação, especialmente devido à linguagem.

Segundo Robin Dunbar, este foi o fator que fez nosso cérebro maior: a necessidade de controlar um grupo social maior (mais indivíduos interagindo).

A troca de informações entre pessoas sobre terceiros é também chamada de fofoca. A fofoca é um fator “pró-social”, pois ajuda a controlar a reputação. É barata e eficiente (segundo Feinberg e outros) e não requer habilidades (segundo Foster). E pode ter sido causa para o desenvolvimento da linguagem. A fofoca também é um instrumento de “ressonância”, para que está chegando conhecer o grupo (segundo Ellwardt). Entretanto, conforme Foster,  fofoca demais torna a reputação negativa e marginaliza o indivíduo.

A comunicação pode ter sido um fator de seleção natural, ajudando na adaptação a novos ambientes, através da troca de experiências e dicas pela cooperação entre pessoas.

E reputação ajuda também as empresas. Veja a importância que as empresas estão dando para análise de sentimentos na web, ou seja, analisar o que estão falando dela e seus produtos/serviços principalmente nas redes sociais.

Sobre a punição, os estudos de Boyd e parceiros concluíram que ela deve existir, senão a estratégia não funciona. E isto mesmo tendo custo para quem pune e talvez até mais custo que benefícios (ex.: prisões). O medo de desertar depende da probabilidade de ser descoberto e não somente no tamanho da transgressão (culpa é maior quando se torna pública, segundo Wright). O Código de Hamurabi (escrito na Babilônia em 1.700 a.C.), já valorizava a cooperação e punia o egoísmo. Em alguns casos, a raiva é motivação a mais para punir quem não coopera (segundo Fehr e Gachter)

Segundo Boyd (em jogos com mais jogadores), a cooperação recíproca evolui quando pune também os que não punem (estratégia moralista). A falta de punição diminui a cooperação. Em grupos onde punidores são comuns, desertores são excluídos.

Em relação à cooperação como forma de eliminar a tragédia dos comuns, Nowak cita o experimento de Manfred Milinski utilizando um jogo onde pessoas recebem dinheiro e devem doar parte para salvar o planeta. Frequentemente acontecia de o grupo falhar em salvar o planeta mas havia altruísmo (através das doações). Observadores concluíram que, quando pessoas recebem informações sobre resultados (por exemplo, importância em ajudar para salvar planeta), elas tendem a cooperar mais. A conclusão é que pessoas precisam ser convencidas dos problemas para fazer sacrifícios para o bem comum.
E também: pessoas são mais generosas quando suas ações são públicas (e não anônimas).
E daí mais uma vez a importância da reputação.

Hoje em dia podemos ver que as pessoas estão mais preocupadas com a reputação, porque há câmeras espalhadas, porque nossas ideias publicadas em redes sociais e blogs são lidas (e criticadas) por mais pessoas. Há quem seja contra tantas críticas e discussões nas redes sociais. Mas elas possuem valor como instrumento para manter a reputação e punir desertores modernos. E daí também a importância das redes sociais, sites de reclamações, opiniões e avalições de empresas, produtos e serviços, porque ajudam a criar e manter reputações. É claro que devemos excluir os chatos que reclamam ou criticam por motivos egoístas (como forma de liberar sua própria energia ou para fazer fama no grupo).

Nowak acredita que há ciclos (altos e baixos) de cooperação e deserção na história da humanidade. Só não sabe em que ponto estamos.



Referências:

AXELROD, Robert. The Evolution of Cooperation (revised edition). Basic books, 2006.

BOYD, Robert; GINTIS, Herbert; BOWLES, Samuel; RICHERSON, Peter J.  The evolution of altruistic punishment. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v.100, n.6, 2003, p.3531-3535.

ELLWARDT, Lea. Gossip in Organizations: A Social Network Study. Ridderprint, 2011.

FEHR, Ernst; GACHTER, Simon. Altruistic punishment in humans. Nature, n.415, Janeiro 2002, p.137-140.

FEINBERG, Matthew; WILLER, Robb; STELLAR, Jennifer; KELTNER, Dacher. The Virtues of
Gossip: Reputational Information Sharing as Prosocial Behavior. Journal of Personality and Social Psychology, Vol. 102, No. 5, 2012, p.1015–1030.

FOSTER, Eric K. Research on Gossip: Taxonomy, Methods, and Future Directions. Review of General Psychology, v.8, n.2, 2004, p.78–99.

NOWAK, Martin A. Why we help. Scientific American, Julho 2012, p.34-39.

NOWAK, Martin A. Five rules for the evolution of cooperation. Science, v.314, Dezembro 2006,
p.1560-1563.

NOWAK, Martin A. Evolutionary dynamics - exploring the equations of life. Harvard University Press, 2006.

WRIGHT, Robert. The moral animal - why we are the way we are: the new Science of evolutionary psychology. Vintage, 1995.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sobre previsões e causalidade



Previsão autorrealizável: alguém faz uma previsão que influencia as pessoas e a previsão acaba ocorrendo por causa disto.

Vejam este texto extraído de "O Sinal e o Ruído" de Nate Silver:
"Se um grupo de estilistas influentes chega à conclusão de que marrom será a cor em alta no ano seguinte e fabrica várias roupas marrons, contrata modelos e celebridades para vestirem
roupas marrons e exibe em lojas, vitrines e catálogos muitas peças marrons, o público pode
começar a agir de acordo com a tendência. Mas estão reagindo mais à publicidade dessa cor do que expressando uma profunda preferência subjacente por ela. O estilista pode parecer um “sábio” por ter “previsto” a cor da moda, porém, se tivesse escolhido preto, branco ou lilás, o mesmo processo poderia acontecer."

Previsão autocancelável: a publicação da previsão muda o comportamento das pessoas e altera a previsão. Por exemplo, na transmissão de doenças, se o governo fizer campanhas, a população muda seus hábitos e diminui a velocidade de transmissão. Ou aumenta o número de casos relatados (e os casos escondidos não estavam sendo contados).
 
Outro texto extraído de "O Sinal e o Ruído" de Nate Silver:
"Ozonoff acredita que esse fenômeno pode ser responsável, em parte, pela
velocidade com que a gripe suína pareceu se espalhar pelos Estados Unidos em
2009. A doença se disseminou com rapidez, mas parte do acentuado aumento
estatístico pode ter vindo de pessoas que notificaram aos médicos sintomas que,
de outro modo, teriam ignorado. Se os médicos quiserem fazer estimativas sobre o ritmo em que uma doença se espalha na população, o número de casos publicamente notificados
pode gerar resultados falhos."


Problema da causalidade:
o Big Mac é o sanduíche que vende mais porque fica pronto mais rápido, ou fica pronto mais rápido porque vende mais ? Se o McDonalds começasse a pré-preparar o McFish (mais unidades prontamente disponíveis), ele seria o mais vendido ?

Mais um texto extraído de "O Sinal e o Ruído" de Nate Silver:
"A situação pode ser comparada à notificação de crimes: um número elevado de roubos registrados em um bairro é consequência de policiais mais vigilantes, que detectam crimes que antes não conseguiriam, ou da facilidade de registrá-los? Ou, ainda, de o bairro estar se
tornando mais perigoso?"

Sobre o problema da causalidade, Levitt e Dubner (no livro "Freakonomics: A Rogue Economist Explores the Hidden Side of Everything") afirmam que a redução de crimes em 1990 pode ter como causa a legalização do aborto no início da década de 1970.